Espiritismo
Históricos
Na Inglaterra
Na Inglaterra
É sobretudo na Inglaterra que encontramos uma plêiade de grandes homens entregues a esses estudos. Queremos citar, em primeiro lugar, um testemunho eminente, o de William Crookes. Acreditamos ser inútil recordar ao leitor os títulos pelos quais esse sábio tornou-se merecedor da gratidão pública. É nos suficiente dizer que a ele se deve a descoberta do tálio e a demonstração experimental da existência da matéria radiante entrevista por Faraday. Esta nova estrada, aberta às investigações científicas, rasgou imenso e grandioso horizonte à Ciência contemporânea, e pode-se dizer que é uma das maiores descobertas do século passado.
Um espírito tão eminente não se aventura em terreno desconhecido sem tomar todas as precauções imagináveis contra o erro ou contra a fraude.
Escutemos o que ele diz sobre o Espiritismo, em um artigo publicado em julho de 1870, no "Quartely Review", órgão da Academia de Ciências da Inglaterra:
"O espiritualista fala de corpos pesando 50 ou 100 libras que são elevados no ar, sem intervenção de forças conhecidas; mas o químico está acostumado a fazer uso de uma balança sensível a um peso tão diminuto que seriam necessários dez mil deles par pesar um grão(1). É, por conseguinte, bem fundado pedir-se que esse poder, que se diz guiado por uma inteligência e eleva até ao teto um corpo pesado, faça mover, em condições determinadas, sua balança tão delicadamente equilibrada.
"O espiritualista fala de pancadas em diferentes partes de um aposento, enquanto duas ou mais pessoas estão tranqüilamente sentadas em volta de uma mesa. O experimentador científico tem o direito de pedir que essas pancadas sejam produzidas no tubo do seu fonógrafo.
"O espiritualista fala de aposentos e casas atormentados e, mesmo, danificados por um poder sobre-humano. O homem de ciência pede, simplesmente, que um pêndulo, colocado sob uma campânula de vidro e repousando em sólida alvenaria, seja posto em oscilação.
"O espiritualista fala de objetos de mobília a se moverem de um aposento para outro, sem a ação do homem; mas o sábio constrói instrumentos que dividem uma polegada em um milhão
de partes, e lhe é lícito duvidar da exatidão das observações efetuadas, se a mesma força for impotente para fazer mover de um simples grau o indicador do instrumento.
"O espiritualista fala de flores salpicadas com um fresco rocio, de frutos e, mesmo, de seres viventes transportados através de sólidas muralhas de tijolo. O investigador científico pede, simplesmente, que um peso adicional (que fosse a milésima parte de um grão) seja depositado em uma das conchas de sua balança, quando ela está no mostrador fechado a chave; e o químico pede que se introduza a milésima parte de um grão de arsênico através de um tubo de vidro no qual se encontra água pura, hermeticamente encerrada.
"O espiritualista fala de manifestações de um poder equivalente a milhares de libras, que se produz sem causa conhecida. O homem de ciência, que crê firmemente na conservação da força e que pensa que ela jamais se produz sem o esgotamento de alguma coisa para substituí-la, pede que as ditas manifestações sejam produzidas em seu laboratório, onde ele poderá pesá-las, medi-las, submetê-las às suas experiências." (2)
Ofereceram-se para assistir-me, com todos os seus poderes, pondo à minha disposição as suas faculdades particulares. E, até o ponto que atingi, posso acrescentar que as experiências preliminares têm sido satisfatórias. (Nota de William Crookes.)
Vê-se com que desconfiança, com que precaução o sábio químico começa as suas experiências. Ele não quer conceder a sua confiança senão com a condição expressa de que o fenômeno se produza em seu laboratório, de alguma sorte sob seu controle, a fim de estar bem certo de que nenhuma fraude, nenhuma ilusão influiria nos resultados que pudessem produzir-se: eis a verdadeira sabedoria. Quantos de nossos sábios, que negam a priori, estão longe de seguir-lhe o exemplo! As linhas que acima citamos foram escritas em 1870, mas, em 1876, após quatro anos de perseverantes investigações, o grande físico escreveu:
"Não digo que isso seja possível, mas sim que isso é real."
Veremos adiante as experiências que serviram para fortalecer a opinião do sábio inglês.
A Sociedade Dialética de Londres, fundada em 1867 sob a presidência de Sir John Lubbock, e contando entre os seus vice-presidente Thomas-Henry Huxley, um dos professores mais sábios da Inglaterra, o Sr. Georges-Henry Lewes, fisiologista eminente, decidiu, em sua sessão de 6 de janeiro de 1869, que uma Comissão seria nomeada para estudar os pretendidos fenômenos espíritas, dando conta deles à Sociedade.
O debate suscitado por essa decisão mostrou que a maior parte dos seus membros não acreditava no Espiritismo, e os jornais ingleses acolheram, com júbilo, a nomeação dessa Comissão que, pensava-se, cortaria pela raiz o Modern Spiritualism.
Com profunda surpresa do público inglês, a Comissão, depois de dezoito meses de estudo, concluiu a favor da realidade das manifestações. Daremos o texto do seu relatório no momento em que expusermos as experiências espíritas.
Entre os membros que tomaram parte nesse inquérito, estava o grande naturalista inglês Alfred Russel Wallace, êmulo e colaborador de Darwin, já convencido da realidade dos fenômenos.
Como Mapes, como Hare e tantos outros, o Sr. Wallace, vencido pela evidência, fez corajosamente a sua profissão de fé, em um livro: "Miracles and Modern Spiritualism", que apaixona ainda os espíritos na Inglaterra.
No número das testemunhas ouvidas pela Comissão da Sociedade Dialética de Londres, figuravam o professor Auguste de Morgan, presidente da Sociedade Matemática de Londres, secretário da Sociedade Real Astronômica, e o Sr. Varley, engenheiro-chefe das companhias de telegrafia internacional e transatlântica, inventor do condensador elétrico, que resolveu definitivamente o problema da telegrafia submarina.
O Sr. de Morgan afirmou alto e bom som a realidade dos fenômenos, pelo seu livro: "From Matter to Spirit", e, mais adiante, veremos uma carta onde o Sr. Varley rende, publicamente, homenagem aos espíritos.
Semelhante concurso de nomes eminentes poderia parecer suficiente para estabelecer solidamente a teoria espírita, mas, em assuntos tão debatidos, convém não deixar de apresentar as afirmações autorizadas. Eis ainda outros testemunhos:
O Sr. Oxon, professor da Universidade Oxford, estudou durante cinco anos o fenômeno da escrita direta, isto é, da escrita produzida sem a intervenção de pessoa vivente. Publicou um livro intitulado "Spirit Teachings", que terá a sua utilidade na discussão que adiante vamos apresentar.
Somos assaz escrupulosos para não deixar passar em silêncio o testemunho de outro homem eminente, Sergent Cox, jurisconsulto filósofo, escritor que também se convenceu pelo exame.
Igualmente, lembramos que o Sr. Barkas, membro da Sociedade de Geologia de Newcastle narrou suas experiências em um livro muito interessante, intitulado "Outlines of Investigation into Modern Spiritualism". Convidamos as pessoas que se queiram convencer a lerem esta obra.
A luta na Inglaterra não foi menos vivaz que nos Estados Unidos; os adversários do Espiritismo deviam, aí também, fazer todos os esforços para destruir a verdade nascente; mas, nesses países de livre discussão, onde o receio do ridículo é menos vivo que entre nós, os convertidos não recearam dar afirmação nítida e franca de sua mudança de idéias.
Entre os cépticos mais tenazes, achava-se o Dr. Georges Sexton, célebre conferencista que fizera grande campanha contra a nova doutrina. O estudo dos fatos conduziu-se depois de quinze anos de investigações, à convicção.
"Obtive, diz ele, em minha própria casa, na ausência de todos os médiuns públicos, mas no seio dos membros de minha família e dos meus amigos particulares e íntimos, nos quais o poder mediúnico tinha sido desenvolvido, a prova irrefutável, de natureza a impressionar a fria razão, de que as comunicações recebidas vinham de parentes e amigos falecidos."(3)
Um outro sábio, o Dr. Chambers, durante muito tempo adversário declarado do Espiritismo, foi obrigado a render-se à evidência, e, lealmente, confessou o seu passado erro, no "Spiritual Magazine".
Citamos também, terminando, entre os espíritas ilustres, o Dr. James Gully, autor da "Névropathie et Névrose" e da "Hygiene dans les maladies chroniques", acatada autoridade na Inglaterra.
Como se observa, o Espiritismo tem recrutado seus adeptos entre os homens de ciência. O lado fenomenal foi estudado com todo o rigor de que são capazes os sábios, e ele saiu triunfante das provas múltiplas a que foi submetido.
Há dez anos, uma agremiação foi intitulada "Society for Psychical Research", abriu um grande inquérito sobre as aparições. Publicou regularmente o relatório de seus trabalhos, nos "Proceedings", e fez editar um livro: "Phantasms of the Living" ("Fantasmas dos Vivos") que relata mais de duzentos casos de aparições bem averiguadas. Os Srs. Myers, Gurney e Podmore, os autores, atribuem esses fenômenos ao que eles chamam Telepatia, isto é, ação a distância de um espírito humano sobre outro; a aparição chama-se, então alucinação verídica. Eis aí uma tentativa científica para fazer o fenômeno entrar no quadro das leis conhecidas. Essa investigação teve como conseqüência dar ao Espiritismo uma feição de atualidade, e vemos sábios como Lodge, cognominado o Darwin da Física, conjugar, na Academia Britânica para o adiantamento das ciências, seus colegas a caminhar para diante e a verificar resolutamente esses estudos tão cativantes e ainda tão novos. Mencionaremos, entre os numerosos jornais ingleses, o "Light", fundado pelo Sr. Oxon, e "The Mediun anda Daybreak". Vejamos agora o que se passa na França.
(1) Um grão corresponde, mais ou menos, a cinco centigramas.
(2) Para ser justo a este respeito, devo dizer que, expondo estes intuitos a vários espiritualistas eminentes e aos médicos mais dignos de confiança na Inglaterra, eles exprimiram a sua perfeita confiança no êxito do inquérito, se ele fosse lealmente prosseguido segundo acima indiquei.
(3) Wallace - "Les miracles et le moderne Spiritualisme".pág.240.
(4) O Sr. Roggers tornou-se, posteriormente, adepto da teoria espírita, e foi o redator-chefe do "Light", jornal espírita de Londres.





