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Em 1847, a casa de um certo John Fox, residente em Hydesville, pequena cidade do estado de New York, foi perturbada por estranhas manifestações; ruídos inexplicáveis faziam-se ouvir com tal intensidade que essa família não pôde mais repousar. Apesar das mais numerosas pesquisas, não se pôde encontrar o autor dessa bulha insólita; porém, se notou que a causa produtora parecia ser inteligente. A mais jovem das filhas do Sr. Fox, chamada Kate, familiarizada com o invisível batedor, disse: "Faça como eu", e bateu com as suas mãozinhas um certo número de pancadas, as quais o agente misterioso repetiu. A Sr.a Fox disse-lhe: "Conte dez." O agente bateu dez vezes. "Que idade tem a nossa filha?" A resposta foi correta. A esta pergunta: "Sois um homem, que vós bateis?", nenhuma resposta se obteve; mas, a esta outra: Sois um Espírito?", houve resposta com pancadas rápidas e nítidas. Chamados os vizinhos, estes foram testemunhas dos mesmos fenômenos. Todos os meios de vigilância foram postos em ação para a descoberta do invisível batedor, mas o inquérito da família e o de toda a vizinhança foi inútil. Não se pôde descobrir a causa real daquelas singulares manifestações. As experiências seguiram-se, numerosas e precisas. Os curiosos, atraídos por esses fenômenos novos, não se contentaram mais com perguntas e respostas. Um deles, chamado Isaac Post, teve a idéia de nomear em voz alta as letras do alfabeto, pedindo ao Espírito para bater uma pancada quando a letra entrasse na composição das palavras que quisesse fazer compreender. Desde esse dia ficou descoberta a telegrafia espiritual; este processo é o que vemos aplicado nas mesas girantes. Eis aí, em toda a sua simplicidade, os preliminares do fenômeno que devia revolucionar o mundo inteiro. Os investigadores notaram que o fenômeno só se produzia em presença da jovem Fox; atribuía-se-lhe um certo poder chamado mediunidade. O Espírito que se manifestava às jovens Fox declarou chamar-se CHARLES ROSMA e ter sido mascate durante a sua vida terrestre. Convidou as jovens para dar sessões públicas, nas quais ele convenceria os incrédulos de sua existência . A família Fox foi fixar-se em Rochester e, conforme os conselhos de seu amigo do Espaço, as jovens missionárias não hesitaram em afrontar o fanatismo protestante, propondo submeterem-se ao mais rigoroso exame. Acusadas de impostura e intimadas pelos ministros de sua confissão a renunciarem a essas práticas, o senhor e a senhora Fox, compenetrados do dever supremo de propagar o conhecimento dos fenômenos, que consideravam como grande e consoladora verdade, útil a todos, recusaram submeter-se, e foram expulsos de sua igreja. Os adeptos que se reuniam ao seu redor foram vítimas da mesma reprovação. Os conservadores fanáticos da fé dos avós sublevaram a multidão contra a família Fox. Os apóstolos da nova fé ofereceram-se, então, para fazer a prova pública da realidade das manifestações, diante da população reunida no Corynthian-Hall, o maior salão da cidade. Começou-se por uma conferência, onde foram expostos os progressos do fenômeno desde os primeiros dias. Esta comunicação foi acolhida por uma vaia, mas, não obstante isso, terminou pela nomeação de uma comissão encarregada de examinar os fatos. Contra a expectativa geral e contra a sua própria convicção, a comissão viu-se forçada a declarar que, depois de minucioso exame, não tinha podido descobrir vestígio de fraude. Nomeou-se uma segunda comissão, que recorreu a processos de investigação mais rigorosos; fez esquadrinhar e mesmo despir as médiuns, por senhoras, bem entendido; ouviram-se sempre os estalidos ou pancadas na mesa, viram-se móveis em movimento; respostas foram obtidas sobre todas as questões, mesmo mentais; nada havia nisso de ventriloquia, de subterfúgios; nenhuma fraude foi possível encontrar. Essa comissão apresentou um laudo mais favorável ainda que a primeira sobre a perfeita boa-fé e a realidade do incrível fenômeno. É impossível, diz a Sr.a Hardinge descrever-se a indignação que se manifestou ante esta segunda decepção. Uma terceira Comissão foi escolhida entre os mais incrédulos e mais motejadores. O resultado desta investigação, ainda mais vexatória para as duas pobres jovens que as anteriores, confundiu mais do que nunca os seus detratores. O ruído do insucesso deste exame supremo espalhou-se pela cidade. A população, exasperada, julgando ter havido traição dos comissários e conivência destes com os impostores, declarou que, se o laudo lhes fosse favorável, lincharia as médiuns e seus advogados. As jovens, apesar do terror, escoltadas por sua família e por alguns amigos, não deixaram de apresentar-se na reunião, e pediram lugar no estrado da grande sala, decididos todos a perecer, se isso fosse necessário, mártires de uma impopular, mas incontestável verdade. A leitura do relatório foi feita por um membro da Comissão que havia jurado descobrir a tramóia; ele, porém, viu-se obrigado a confessar que a causa das pancadas, apesar das mais minuciosas pesquisas, era-lhe desconhecida. Imediatamente, produziu-se um tumulto medonho; a população quis linchar as jovens, e o teria feito, se não fosse a intervenção de um americano chamado Georges Villets, que fez do seu corpo um escudo e induziu a multidão a sentimentos mais humanos. Vê-se, por esta narração, que o Espiritismo(*), desde o seu início, foi severamente estudado. Não foram somente os vizinhos, mais ou menos ignorantes, que certificaram o fato, então inexplicável; foram Comissões regularmente nomeadas que após minuciosos inquéritos, viram-se obrigados a reconhecer a autenticidade absoluta do fenômeno. É necessário dizer-se que o fenômeno tomou, em seguida, outro aspecto. As pancadas, em vez de se produzirem sobre as paredes e sobre o soalho, faziam-se ouvir na mesa, em torno da qual estavam reunidos os experimentadores. Este modo de proceder fora indicado pelos próprios espíritos. Observou-se também que, pondo-se as mãos sobre a mesa, esta última era animada por certos movimentos de balanço, e descobriu-se neste fato um novo meio de comunicação. Bastava nomear as letras do alfabeto, para que o móvel indicasse, por uma pancada, aquelas que entravam na composição da palavra que o Espírito queria ditar. A mania de fazer girar as mesas propagou-se rapidamente. Dificilmente se pode, hoje, figurar a predileção de que essas experiências foram objeto durante os anos de 1850 e 1851. Todas essas investigações conduziram à nova crença homens de reconhecida autoridade moral e intelectual. Escritores, oradores, magistrados, prelados ilustres aceitaram o fato e a causa da doutrina escarnecida; missionários eloqüentes puseram-se em viagem; escritores fundaram jornais, editaram brochuras que, espalhadas em profusão, impressionaram a opinião pública e abalaram as prevenções. O movimento acelerou-se tanto que, em 1854, uma petição, apoiada por quinze mil assinaturas, foi dirigida ao congresso legislativo de Washington; seu escopo era fazer que esse congresso nomeasse uma Comissão encarregada de estudar os novos fenômenos e descobrir-lhes as leis. Essa petição foi posta de lado, mas o impulso não foi obstado, porque os fatos tornaram-se mais numerosos e variados à medida que o estudo prosseguia com perseverança. O fenômeno das mesas girantes foi logo conhecido em todas as suas particularidades. O modo de conversação, por meio de pancadas e movimentos da mesa, era longo e incômodo. Apesar da habilidade dos assistentes, era necessário muito tempo, muita paciência para obter-se uma comunicação de importância. A própria mesa ensinou um processo mais rápido. Conforme suas indicações, adaptou-se a uma prancheta triangular três pernas munidas de rodinhas, e a uma delas prendeu-se um lápis; em seguida, colocou-se o aparelho sobre uma folha de papel; o médium colocou as mãos sobre o centro dessa pequena mesa. Viu-se, então, o lápis traçar letras, depois frases, e, daí a pouco, essa prancheta escrevia com rapidez e dava mensagens. Mais tarde, percebeu-se que a prancheta era completamente inútil, e que bastava o médium colocar a mão, munida de um lápis, sobre uma folha de papel, para o Espírito movê-la automaticamente. Essa espécie de comunicação foi chamada escrita mecânica ou automática, porque o indivíduo, neste estado, não tinha consciência daquilo que a mão traçava no papel. Outros médiuns obtiveram por esse meio desenhos curiosos, música, ditados acima do alcance da sua inteligência e, às vezes mesmo, comunicações em línguas estrangeiras que lhes eram absolutamente desconhecidas. O estudo cada vez mais aprofundado dessas manifestações novas conduziu os investigadores a exames ainda mais rigorosos e a resultados mais inesperados para os cépticos. O raciocínio levara os primeiros investigadores a dizer de si para si que, desde que os Espíritos podiam atuar sobre as mesas, sobre os médiuns, não lhes devia ser impossível fazerem mover diretamente um lápis e escreverem sem o auxílio de aparelhos. Foi o que se realizou. Folhas de papel em branco, encerradas em caixa hermeticamente seladas, foram encontradas, em seguida, cobertas de caracteres. Ardósias, entre as quais se achava um pequeno pedaço de lápis, continham, após a aposição das mãos, comunicações inteligentes, desenhos, etc. O fenômeno reservava ainda outras surpresas; luzes de formas e cores variadas e em diversos graus de intensidade, apareciam em aposentos sombrios, onde não existia nenhuma substância capaz de desenvolver ação fosforescente, e isso na ausência de todos os instrumentos por intermédio dos quais a eletricidade e a combustão podem ser produzidas. Esses clarões tomavam , às vezes, a aparência de mãos humanas, de figuras envolvidas por uma névoa luminosa. Paulatinamente, as aparições adquiriram maior consistência, tornando-se possível não somente ver, mas também tocar fantasmas que apareciam em tão singulares circunstâncias. Fez-se melhor: pôde-se fotografá-los, como veremos mais adiante. As narrações dessas experiências eram acolhidas com grande incredulidade; porém, como os fatos se produzissem em avultado número e os espíritas não recuassem diante de nenhum meio de propagar a sua fé, a atenção do público sábio e letrado era atraída para esse estudo e, em pouco tempo, conduzia a uma adesão pública homens altamente colocados e muito competentes.
Negligenciamos, voluntariamente, mencionar as inumeráveis declarações
feitas por publicistas, médicos, advogados a fim de reservarmos
todo o apelo à atenção do leitor para os testemunhos
autênticos dos homens notáveis de ciência que se têm
ocupado com esta questão. __________ |
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