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Movimento Espírita
Na França

 

A notícia dos fenômenos misteriosos que se produziam na América, suscitou na França viva curiosidade e, em pouco tempo, a experiência das mesas girantes atingiu grau extraordinário.

Nos salões, a moda era interrogá-las sobre as mais fúteis questões. Era um passatempo de nova espécie e que fez furor.

Durante os anos de 1851 e 1852, ninguém viu nessas práticas senão um agradável divertimento; não se tomava o fenômeno a sério, e, como fossem ignorados os notáveis trabalhos dos quais esse estudo era objeto do outro lado do Oceano, não se tardou a abandonar as mesas girantes, que só tinham tido para as massas o atrativo da novidade e a singularidade dos processos.

Todavia, literatos como Eugéne Nus, homens do mundo diplomático, como o Conde d’Ourches e o Barão de Guldenstubbé, tinham sido impressionados pelo caráter inteligente que revestia o movimento da mesa, e esse último publicou, em 1857, um livro intitulado "La Réalité des Esprits". Encontram-se nesse livro relatadas as primeiras experiências da escrita direta que foram obtidas na França.

Esta publicação não fez rumor de importância. A imprensa, segundo o seu antigo costume, ridicularizou livremente alguns fiéis que tinham preservado nesses interessantes estudos, e tudo parecia ter sido esquecido, quando surgiu, em 1857, "O livro dos Espíritos", por Allan Kardec. Essa publicação atiçou a guerra. O público soube, com espanto, que aquilo que tinha sido considerado até então como distração encerrava as mais profundas deduções filosóficas; admirou-se de que, do movimento das mesas girantes, se deduzisse a prova da imortalidade do ser presente, e achava-se em face de uma nova teoria sobre o futuro da alma depois da morte.

Semelhantes afirmações não podiam ser aceitas sem contestações. De todas as partes elevou-se uma gritaria contra o desventurado autor. Os jornais, as revistas, as academias protestaram, mas, honra seja feita à França, não se viram aí reproduzidas as cenas de violência que tinham acolhido o Espiritismo na América.

Retomou-se o estudo sobre o fenômeno das mesas girantes e duas correntes de opiniões desenharam-se nitidamente. Para uns, o fenômeno não tinha nenhuma realidade; as pancadas, os movimentos das mesas, eram produzidos pela fraude, ou, para outros, os deslocamentos da mesa e suas respostas eram devidas a uma ação magnética, exercendo-se de modo ainda indeterminado. Pode-se contar entre os partidários desta doutrina o Conde Agenor de Gasparin, que fez numerosas pesquisas sobre o assunto e publicou um volume sob o título "Des tables tournantes, du Surnaturei en géneral et des Espirits".

Tal interpretação foi adotada por um certo número de escritores, como o Sr. Chevillard. O professor Thury, de Genebra, deu como causa do fenômeno um agente especial, que ele chama psicode, fluido que atravessa os nervos e todas as substâncias orgânicas e inorgânicas, como o éter luminoso dos sábios. Um escritor americano, o Sr. Roggers(4), admitira, desde a origem, as manifestações, mas explicava-as pela ação automática dos centros nervosos: o cérebro, a matéria ativa da medula alongada, o cordão espinhal e as inúmeras glândulas dos nervos espalhados no abdômen; esses centros diversos agiriam por meio do fluido universal e imponderável, descoberto por Reichenbach, que o denominou od ou odilo.

Todas essas pesquisas, todas essas controvérsias conduziram grande número daqueles que se ocupavam do assunto a concluir que, nos movimentos das mesas girantes, havia alguma coisa mais que pura ação física.

Admitiu-se a existência de forças psíquicas que poderiam agir sobre a matéria, em certas condições; mas, ainda dois horizontes se descortinaram. Os filósofos espiritualistas concluíram a favor das comunicações das almas de pessoas falecidas, enquanto os escritores religiosos se esforçavam por demonstrar que esses fatos eram produzidos pelo espírito do mal, denominado Satanás. pode-se classificar nesta última classe o Marquês de Mirville, que, em seu livro "Des Espirits et de leurs manifestations fluidiques", cita grande número de observações, atribuindo-as ao demônio. Na mesma ordem de idéias acha-se o Sr. Gougenot des Mousseaux, que intitula o Espiritismo de magia moderna, e, como o padre Ventura, arrisca-se, com os textos na mão, a demonstrar que as manifestações dos anjos maus estão assinaladas no evangelhos e pelos padres da Igreja.

Enfim, citaremos também os livros do Sr. Abade Pussin, de Nice, e do Abade Marousseau, que concluem no mesmo sentido.

A diversidade das opiniões que acabamos de assinalar nada tem de singular.

Em face de um fenômeno ainda mal conhecido, é natural a divergência em sua explicação conforme a escola à qual se pertence, mas estamos bem certos de que ninguém jamais se lembrará, como a Academia de Medicina de Paris, em 1859, de atribuir o fenômeno a um certo músculo rangedor da perna.

Essa Academia "descobriu que as pancadas produzidas na mesa eram devidas a um músculo rangedor da perna, que, de tempos e tempos, se entregava a facécias, sendo que as pessoas ingênuas tomavam isso por manifestações de Espíritos.

Certo dia, um Sr. Jobert de Lamballe foi "iluminado" por essa descoberta genial, e a Academia apressou-se em louvar o perspicaz sábio que tinha encontrado nos músculos humanos propriedades tão inesperadas.

O público não adotou, tão facilmente como essas sumidades médicas, a explicação dos músculos sonoros, e podemos citar bom número de homens ilustres que aderiram inteiramente ao Espiritismo.

Com o seu estilo nervoso e poético, Auguste Vacquerie conta, nas "Miettes de l’Histoire", as experiências que fez em companhia da Sr.a de Girardin, em casa de Victor Hugo, em Jersey.

O maior dos nossos poetas modernos, Victor Hugo, diz:

"A mesa girante e falante foi muito ridicularizada. Essa zombaria é sem alcance. - Estimaríamos que fosse um dever estrito da ciência sondar todos os fenômenos. Negar a atenção a que tem direito o Espiritismo é desviar a atenção da verdade."

O Sr. Victorien Sardou converteu-se ao Espiritismo e tornou-se excelente médium desenhista.

A "Revue Spirite", de Paris, publicou desenhos mediúnicos obtidos por ele, que são obras-primas, de execução delicada e de uma fantasia verdadeiramente espiritual.

O historiador Eugéne Bonnemére escreveu:

"Como todo o mundo, eu também me ri do Espiritismo, mas, o que pensava ser o riso de Voltaire não era mais que o riso idiota, muito mais comum que o primeiro."

O ilustre astrônomo Camille Flammarion também, por muito tempo, estudou esses fenômenos e popularizou, em seu estilo maravilhoso as doutrinas filosóficas do Espiritismo.

Theóphile Gautier, o mavioso poeta, intitula "Espírita" uma de suas novelas mais cativantes, e, em suas obras, encontram-se, a cada passo, traços de suas crenças na nova doutrina.

Maurice Lachâtre, o autor do grande dicionário, é também partidário convicto dessas idéias. O Dr. Paul Gibier, laureado pela Academia de Medicina, encarregado de diversas missões científicas, reuniu suas esperiências sobre o Espiritismo em dois volumes: "Le Spiritisme ou Fakirisme occidental" e "Analyse des Choses".

Encontram-se, nesses livros, fatos bem observados e confirmações de trabalhos anteriores sobre o mesmo assunto. Por instâncias da Sociedade de investigações Psíquicas de Londres, formou-se em Paris uma Sociedade de Psicologia Fisiológica, cujo fim é estudar os fenômenos telepáticos, isto é, de aparições.

Esta sociedade nomeou uma Comissão cujo papel é de analisar os fatos apresentados. Eis os nomes dos comissionados: Srs. Sully Prudhomme (da Academia Francesa), presidente; G. Ballet, professor adido à Academia de Medicina; Beaunis, professor na Faculdade de Medicina de Nancy; Charles Richet, professor na Faculdade de Medicina de Paris; Coronel de Rochas, diretor da Escola Politécnica; Martillier, diretor de conferências na Escola de Altos Estudos, este último como secretário.

Não podemos dar aqui uma bibliografia completa das obras espíritas; falta-nos espaço para tal e, além disso, preferimos citar sábios notoriamente conhecidos, a fim de dar, aos documentos que apresentamos toda a sua autoridade. Ser-nos-ía muito fácil citar bastante nomes de médicos, advogados, engenheiros, homens de letras, como prova incontestável de que o Espiritismo penetrou principalmente nas classes instruídas da sociedade.

Vamos ver como o movimento espírita, começado nos Estados Unidos, espalhou-se não somente na Europa, mas também por todas as partes do mundo.

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(1) Um grão corresponde, mais ou menos, a cinco centigramas.
(2) Para ser justo a este respeito, devo dizer que, expondo estes intuitos a vários espiritualistas eminentes e aos médicos mais dignos de confiança na Inglaterra, eles exprimiram a sua perfeita confiança no êxito do inquérito, se ele fosse lealmente prosseguido segundo acima indiquei.
(3) Wallace - "Les miracles et le moderne Spiritualisme".pág.240.
(4) O Sr. Roggers tornou-se, posteriormente, adepto da teoria espírita, e foi o redator-chefe do "Light", jornal espírita de Londres.

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