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Sob determinados pontos a Itália foi superior a outros países europeus no tratamento do Espiritismo - isto a despeito da constante oposição da Igreja Católica Romana, que sem muita lógica estigmatizou como diabolismo os casos que não receberam a marca especial de santidade. Os Acta Sanctorum constituem um longa crônica de fenômenos psíquicos com levitações, transportes, profecias, e todos os outros sinais de mediunidade. Entretanto essa Igreja sempre perseguiu o Espiritismo. Poderosa como é, verificará, a seu tempo, que enfrentou algo ainda mais forte que ela. Dos modernos italianos o grande Mazzini foi um espírita, naqueles dias em que o Espiritismo mal se esboçava e seu companheiro Garibaldi foi presidente de uma sociedade psíquica. Em carta a um amigo em 1849, Mazzini esboça o seu sistema filosófico-religioso, que curiosamente ampara o mais recente ponto de vista espírita. Ele substitui um purgatório temporário o inferno eterno, que passa a ser uma triagem entre este mundo e o outro, definiu uma hierarquia de seres espirituais, e anteviu um progresso contínuo para a suprema perfeição. A Itália foi rica em médiuns, mas foi ainda mais afortunada com a posse de homens de ciência bastante sábios para acompanhar os fatos, onde quer que eles conduzissem. Entre êstes numerosos investigadores - todos eles convictos da realidade dos fenômenos psíquicos, muito embora não se possa dizer que todos aceitassem o ponto de vista do Espiritismo - encontram-se nomes como Ermacora, Schiaparelli, Lombroso, Bozzano, Morselli, Chiaia, Pictet, Foa, Porro, Brofferio, Bottazzi e muitos outros. Eles tiveram a vantagem de um maravilhoso sensitivo em Eusapia Palladino, como já foi descrito, mas houve uma série de outros médiuns poderosos, entre cujos nomes se podem citar Politi, Carancini, Zuccarini, Lucia Sordi, e especialmente Linda Gazzera. Entretanto, aqui, como em outros campos, o primeiro impulso veio de países de língua inglesa. Foi a visita de D. D. Home a Florença, em 1855 e a subseqüente visita de Mrs. Guppy em 1868 que abriu caminho. O Sr. Damiani foi o primeiro grande investigador e foi êle quem, em 1872, descobriu os dons da Palladino.
O manto de Damiani caiu nos ombros do Dr. G. B. Ermacora, que foi o fundador
e co-editor, com o Dr. Finzi, da Rivista di Studi Psichici. Morreu em
Rovigo aos quarenta anos de idade, assassinado - uma grande perda para
a causa. Sua adesão e o seu entusiasmo provocaram os de outros
do mesmo porte. Assim, em seu necrológio, escreve Porro: Sardou, Richet e Morselli renderam tributo ao trabalho de Chiaia (6). Chiaia fez um importante trabalho orientando Lombroso, o eminente alienista, na investigação do assunto. Depois de suas primeiras experiências com Eusapia Palladino, em março de 1891, escreveu Lombroso: "Sinto-me bastante envergonhado e pesaroso por me haver oposto com tanta tenacidade à possibilidade dos chamados fatos espíritas." Inicialmente apenas aceitava os fatos e se opunha à teoria a eles associada. Mas já essa aceitação parcial causou sensação na Itália em todo o mundo. Aksakof escreveu ao Dr. Chiaia: "Glória a Lombroso por suas nobres palavras! Glória a você, por sua dedicação!" Lombroso oferece um bom exemplo de conversão de um materialista decidido, depois de longo e cuidadoso exame dos fatos. Em 1900 escreveu ele ao Professor Falcomer: "Sou como um pequeno seixo na praia. Ainda estou a descoberto; mas sinto que cada maré me arrasta para mais perto do mar". Como se sabe, êle acabou se tornando um crente completo, um espírita convicto e publicou um livro célebre "Morte... E depois?". Ernesto Bozzano, nascido em Gênova em 1862, devotou trinta anos a pesquisas psíquicas, reunindo as suas conclusões em trinta extensas monografias. Será lembrado por sua crítica incisiva (7) às referências inconscientes de Mr. Podmore a Mr. Stainton Moses. Seu título é "Uma Defesa de William Stainton Moses". Bozzano, em companhia dos Professores Morselli e Porro, fez uma longa série de experiências com Eusapia Palladino. Depois a de analisar os fenômenos objetivos e subjetivos, foi conduzido à "necessidade lógica" de aderir completamente à hipótese espírita.
Eurico Morselli, Professor de Psiquiatria em Gênova, foi durante
muitos anos, como êle próprio o confessa, um duro céptico
em relação à realidade objetiva dos fenômenos
psíquicos. De 1901 em diante fez sessões com Eusapia Palladino,
e ficou inteiramente convencido dos fatos, senão da teoria espírita.
Publicou as suas observações num livro que o Professor Richet
descreve como "um modelo de erudição" - "Psicologia
e Espiritismo", 2 volumes, Turim, 1908. Numa análise muito
generosa deste livro(8), Lombroso se refere ao cepticismo do autor, em
relação a certos fenômenos observados. "Sim, Morselli comete o mesmo erro de Flournoy e de Miss Smith(9), torturando a sua própria e enorme ingenuidade para achar que não são verdades, nem críveis, coisas que êle mesmo declara ter visto. Por exemplo, durante os primeiros dias depois da aparição de sua própria mãe, admitia comigo que a tinha visto e tivera um entendimento por gestos com ela, nos quais ela apontava quase que com amargura para os seus óculos e a sua calva parcial e lhe lembrou como o havia deixado ainda num belo rapaz." Quando Morselli pediu à sua mãe uma prova de identidade, ela tocou com a mão em sua testa procurando um caroço; mas como tocasse primeiro no lado direito e depois no lado esquerdo, onde realmente estava o lobinho, Morselli não queria aceitar isto como prova da presença de sua mãe. Com mais experiência, Lombroso lhe mostra a dificuldade dos Espíritos em usar a instrumentalidade de um médium pela primeira vez. A verdade é que Morselli tinha, por estranho que pareça, a maior repugnância pelo aparecimento de sua mãe através de uma médium contra a sua vontade. Lombroso não pôde compreender este sentimento. E diz: "Confesso que não só não concordo, mas que, ao contrário, quando novamente vi minha mãe, senti uma das mais agradáveis sensações íntimas de minha vida, um prazer que era quase um espasmo, que despertou uma sensação, não de ressentimento, mas de gratidão à médium que novamente lançou minha mãe em meus braços depois de tantos anos. E esse acontecimento me fez esquecer não uma vez, mas muitas vezes, a humilde postura de Eusápia, que tinha feito para mim, ainda que de maneira puramente automática, aquilo que nenhum gigante em força ou em pensamento jamais teria podido fazer". Em muitas coisas a posição de Morselli é a mesma do Professor Richet no que diz respeito à pesquisa psíquica, mas, como este último distinto cientista, foi êle o instrumento de influenciação da opinião para um maior esclarecimento do assunto. Morselli fala com veemência do desprezo da ciência. Em 1907 escreve o seguinte: "A questão do Espiritismo foi discutida por mais de cinqüenta anos; e, conquanto atualmente ninguém possa prever quando ela será resolvida, agora todos concordam em lhe conceder grande importância entre os problemas que ficaram como uma herança do século dezenove ao nosso século. Entretanto ninguém pode deixar de reconhecer que o Espiritismo é uma forte corrente ou tendência do pensamento contemporâneo. Se, durante muitos anos, a ciência acadêmica desprezou o conjunto dos fatos que, por bem ou por mal, certo ou errado, o Espiritismo absorveu e assimilou, considerando-os elementos formadores de seu sistema doutrinário, tanto pior para a ciência! E pior ainda para os cientistas que ficaram surdos e mudos diante de todos as afirmações, não de sectários crédulos, mas de sérios e dignos observadores como Crookes, Lodge e Richet. Não me envergonho de dizer que eu mesmo, até onde minhas modestas forças chegavam, contribui para esse obstinado cepticismo, até o dia em que fui capaz de romper as cadeias nos quais as minhas percepções absolutistas tinham acorrentado o meu raciocínio".(10) É de notar-se que a maioria dos professores italianos, enquanto aderiam aos fatos psíquicos, declinavam das conclusões daqueles a quem chamavam de espíritas.
Houve, entretanto, uma forte minoria que viu o inteiro significado da
revelação. |
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